sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Como surgiu esse texto

A história desse texto é engraçada.
Eu ando muito de ônibus, sempre to indo visitar os meus pais no MS, tenho que fazer aquelas trocas de ônibus que são chatas e demoradas.
Sempre aproveito para colocar as leituras em dia, ou escrever algo.
Escrevi “O Robô” quando eu estava voltando do MS para o PR no dias dos pais (2006). A idéia do texto é bem plagiada do Luis Fernando Veríssimo, esse texto ta na obra “A mãe do Freud”. O texto dele é bem enxuto, eu modifiquei-o com o dia-a-dia que eu estava vivendo na época, fiz ele para uma colega de faculdade, grande parceira até hoje. Ela não sabe jogar truco, meio fresquinha, mas muito gente boa.
É interessante a gente conseguir colocar as idéias no papel, coisas do passado, presente, misturando-se com o futuro, a literatura nos proporciona isso. Parafraseando com um aforismo do Franz Kafka: “Tudo que não é literatura me aborece”.

O Robô


Certo dia, Rodrigo chegou em casa com um robô. O robô era baixinho, redondo e andava sobre rodinhas. Rodrigo era casado com Débora, eles se conheceram na faculdade de Direito. Ele é professor universitário e ela advogada.
- Olhe só – disse o marido. E, dirigindo-se ao robô, disse: - Sete!
O Robô foi até o quarto do casal e de lá trouxe o tênis do Rodrigo, sua luva de musculação e uma camiseta regata. Voltou para o quarto levando o paletó, a gravata e os sapatos.
- Mas isso é fantástico – disse a mulher, sem muita animação.
- Ele está programado para só obedecer a minha voz – explicou Rodrigo.
Rodrigo estava tão entusiasmado com o seu robô que a Débora decidiu não lembrar a ele que naquele dia eles faziam 10 anos de casado. Ele continuou:
- É um código. De acordo com o número que eu digo, ele sabe exatamente o que fazer.
- Os números vão de 1 a 100 e obedecem a uma seqüência que corresponde, mais ou menos, à importância relativa das tarefas. Entendeu?
- Se ela não tivesse dito nada, seria a mesma coisa, porque Rodrigo não a escutava. Olhava o robô como um dia, anos antes quando a pediu em casamento. Os mesmos olhos que a observava no primeiro dia de aula do curso de Direito, o modo como ela ficava segurando os queixo, cada detalhe da bela morena.
Pelo menos ela ficou sabendo que, numa escala de 1 a 100, buscar o tênis, camiseta regata e aquela luvinha vermelha fedida de ir à academia correspondia a Sete.
Logo após retornar da academia, Rodrigo sentou no sofá, todo folgado, olhou para o robô e disse:
- Cinco!
O robô foi até o quarto e voltou com o livro que estava no criado mudo!
Depois do jantar, quando ela começou a limpar a mesa, ele a deteve com um olhar cínico. Disse ao robô:
- Noventa e um!
O robô rapidamente tirou os pratos da mesa, botou tudo dentro da máquina de lavar pratos, ligou a máquina e voltou para aguardar novas instruções.
Mais tarde, quando o marido disse: “Que tal um joguinho de cartas?”, ela levantou-se, alegremente, para pegar o baralho. Logo descobriu que o marido falava com o robô.
- Seis
O robô correu na frente dela, pegou o baralho, pegou o bloco de papel e um lápis, arrumou a mesa para o jogo e ficou esperando. Ele sentou-se para jogar cartas com o robô. Ela perguntou:
- Posso jogar também?
- Lembra-se querida que você nunca aprendeu a jogar truco quando estudávamos juntos? – disse o marido.
- Você pode ir dormir, se quiser.
- Você não vai mais precisar de nada?
- Não, tudo o que eu preciso o robô me arruma, presta atenção: - Três!
O robô fio a geladeira e voltou com uma porção de azeitonas e palmito para o Rodrigo
Débora ficou irritada e acabou indo dormir, mas do quarto ela só escutava o marido dando risadas e dizendo: - Dois, dois, dois, dois, dois, dois...
Tomou uma decisão
Levantou-se e foi até a sala. De camisola (uma camisola de seda, toda decotada, ela ganhou do Rodrigo no dia do seu aniversário, vinte dias atrás).
- Querido...
- Você não estava dormindo?
- Não
- Nós fizemos muito barulho?
- Não
- Então o que é?
- Tem uma coisa que eu faço que esse robô não faz.
- O quê?
- Uma coisa que você gosta muito.
- Você quer dizer...
- Sim – Sorriu ela maliciosamente
- É o que você pensa – disse ele. E, para o robô: Um!!!
Aí o Robô correu até a geladeira, pegou uma pizza semi pronta de quatro queijos e colocou-a no forno. Logo após Rodrigo olhou para o robô e disse: Dois!
O robô trouxe uma long neek de cerveja.
Grupos de feministas apoiaram Débora durante o processo de separação. COM TODA RAZÃO...


Rafael Máximo
2006